Começo, naturalmente, com uma declaração de interesses: sou director do Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês desde a sua fundação, sou um defensor do património histórico/cultural concelhio, sou por linhagem (pelo menos por um costado) e vontade própria silvense.
Começo também pelo fim, pelas conclusões, talvez as menos polémicas, mas essenciais. A cidade e o concelho teriam muito por que se envergonhar, durante muitos anos, se permitissem que o edifício/museu que é a Fábrica do Inglês caísse nas mãos dos seus credores, e estes, senhores de um activo que é para eles, infelizmente, somente e apenas um activo, dele fizessem o que bem entendessem. Como entendessem…
E isto significa tudo o que a imaginação nos permita. Desde o encerramento ad eternum do espaço com as previsíveis consequências que isso acarreta, à sua venda, penhora, ou mesmo o leilão de tudo o que ali reside da nossa memória colectiva. E esta, que eu saiba, nenhum de nós quer pôr à venda!
Recuso-me a chorar sobre leite derramado, e a procurar os culpados ou as culpas para a situação presente, como alguns agora procuram fazer, porque inútil e oportunista me parece a abordagem. Tenho a minha opinião, naturalmente e por razões óbvias até bem mais fundamentada do que a de outros, mas acho que essa agora nada resolve…e até acrescento, só para lembrar o que alguns esquecem no calor do debate: o que seria daquele espaço, e do seu incomensurável património, se em 1997 os privados não lhe jogassem mão? (o que se vê na foto acima, ou pior?) E digo mais, insuspeito que sou quanto a isso: o empreendimento estaria bem melhor de saúde, desde o início, se a autarquia não fosse PSD, também desde o início. Por muito que vos surpreenda isto que digo, esse é um dos problemas da “Fábrica”, o de ter nascido como se um projecto familiar fosse, na opinião de alguns, e não como um projecto privado que a autarquia deveria, pela sua dimensão, totalmente viabilizar. José Viola viabilizou-o ainda (fui testemunha), pessoal e institucionalmente, nos últimos dias em que foi presidente de Câmara. Quem lhe sucedeu, por pudor, falta de arrojo, dificuldades em “separar águas”, não soube lidar com a importância do que ali estava presente. A proximidade nem sempre facilita; por vezes complica as coisas. Sem quaisquer problemas o digo. Estou na Fábrica desde Abril de 1998…, ultimamente muito menos.
Mas sou pragmático. Está feito, feito está. O que temos agora é uma situação de facto que a cidade e o concelho, seja hoje ou mais tarde, sempre vai ter entre mãos. E não adianta adiar, antes pelo contrário, só vai tornar a situação mais complicada. Aliás, o adiamento de uma postura sobre o assunto a nível político local, não dando o mais que necessário sinal positivo a quem a qualquer momento poderá exercer os seus direitos enquanto credor, pode desencadear fatalmente os acontecimentos e comprometer de forma irreversível a integridade deste património municipal, a que eu e outros (leia-se o comunicado da ICOM-Portugal) não repugna qualificar como nacional.
Para que se tenha uma pequena ideia do que está em jogo, permitam-me que explicite. O edifício da Fábrica do Inglês, para além da sua bem conservada arquitectura original, por si só caso raro no panorama industrial português dos finais de Oitocentos, foi uma das principais fábricas portuguesas de transformação de cortiça. Conservando, até hoje, um incomparável espólio técnico e documental, que lhe valeu em 2001 o Prémio Luigi Micheletti para melhor museu industrial europeu, este espólio, só por si, faria pôr em alerta máximo qualquer silvense preocupado, qualquer político local, qualquer entidade regional ou nacional preocupada com a preservação da nossa memória e identidade. Não podia, nem pode, servir como arma de arremesso político, nem ajustes de contas que, enquanto nos entretêm, servem o interesse de outros menos preocupados com essas coisas “imateriais”. Mas que são, também, materiais e afectivas para muitos ainda vivos, e para outros que não o sendo, vivem através das memórias que as peças desse museu perpetuam. Quem irá explicar à D. Alzira, ao Sr. Francisco, ao Sr. Carlos, ao Sr. Custódio, e a muitos, muitos outros que fizeram desinteressadamente do Museu da Cortiça fiel depositário dos seus bens, o agora incerto destino destas suas memórias?
E não falem alguns do museu e da fábrica, como se duas coisas fossem! Não são. O Museu é a Fábrica, a Fábrica é o Museu. O Museu da Cortiça da Fábrica do Inglês, para além das várias peças que tem presentes em todo o espaço fabril, e que lhe pertencem, não tem vida para além daquele espaço. É um museu de sítio, preserva um sítio, e um património que está in situ, e é hoje único exemplar do que foi a Silves da época da indústria corticeira. Deslocar uma máquina que fosse da oficina rolheira, da Casa do Motor ou da Prensa é desvirtuá-lo, é matá-lo. Nenhuma solução pode pôr isso em causa.
Tenho ideias para soluções, mas não tenho uma solução. Tenho uma certeza, voltando ao início: a cidade e o concelho teriam muito por que se envergonhar, durante muitos anos, se permitissem que o edifício/museu que é a Fábrica do Inglês, e o que ele para todos nós representa, caísse nas mãos dos seus credores, e estes, senhores de um activo que é para eles, infelizmente, somente e apenas um activo, dele fizessem o que bem entendessem.Como bem entendessem!
E isso não é referendável, por favor!
P.S.- Outros (município e EMARP de Portimão), mesmo sem aviso prévio, já tiram partido do que é nosso.