19.9.08

Aqui há coisa!

A recente aprovação em reunião de câmara do passado dia 15 da minuta de contrato com o M.Educação para a descentralização de competências em matéria de educação motiva este post.

O único que votou contra fui eu*(leia-se nota final com os termos da declaração de voto), aquele que é professor no activo. E esse facto, aliado ao pouco debate sobre o assunto, mesmo entre professores, quando a matéria é crucial, não me tem largado "a cabeça". Alimenta ainda esta pequena obsessão, quem sabe, o facto de, em princípio e em teoria, concordar totalmente com a descentralização de competências educativas para o poder local, para a sociedade local, enfim, para aqueles que melhor conhecem as suas realidades próximas, as respostas educativas mais adequadas, e as necessidades do mercado de trabalho (na realidade actual do país e da sua democracia, ainda é algo utópico, eu sei!) . Mas por concordar, em princípio, não se pode entender que a deseje a todo o custo, a qualquer preço, sem que se alcancem consensos sólidos, participados, em matéria tão importante. E só para vos dar uma ideia da rapidez de como as coisas se passaram ao nível municipal, dir-vos-ei que a minuta de contrato chegou da Direcção Regional de Educação na semana passada (dia 9 ou 10, segundo a presidente) e foi presente a reunião extraordinária do dia 11. É claro que insisti no adiamento do assunto (até para que pudesse ler a minuta de contrato!), e este foi trazido a reunião do dia 15 e ali aprovado pela maioria. Mesmo a tempo de no dia seguinte a senhora presidente estar em Lisboa na cerimónia organizada pelo primeiro-ministro e pela ministra da educação para assinatura dos contratos com 92 municípios! Um terço da realidade nacional! Em 2009 teremos assim, caso inédito, duas realidades administrativas na área do ensino público: as escolas que partilham a administração com as autarquias e aquelas que as partilham com o ME. No Algarve, dos 16 municípios, só sete entenderam fazê-lo desde já, Silves incluída. Os outros nove têm dúvidas, esperam para ver, não concordam com os termos do contrato (muito mal redigido quanto a certos pormenores), ou estão solidários com a posição tomada pela ANMP. E quanto a mim, fizeram muito bem! Até Macário Correia, o primeiro no Algarve que se pôs em bicos de pés para realizar um protocolo, e era mais papista que o Papa quando queria já receber responsabilidades sobre pessoal docente, imagine-se!, vem agora, assinado o contrato fazer críticas ao mesmo e à forma como este se processou! Não assinasse, não estivesse presente...mas estando lá, assinando os termos deste acordo, devia agora é estar calado. Não é só desonesto politicamente falando, é criancice política. Fez lembrar-me aqueles putos do meu tempo que faziam contratos ou apostas e depois de estes assentes (com um aperto de mão bem cuspido!), vinham mais tarde tentar mudar os seus termos e as condições do acordo porque tinham pensado melhor... Assim não se faz política séria, senhor Eng. Macário Correia! E o pior é que a nossa presidente bebe as suas palavras, e até toma o que Eng. diz pelo que a ANMP aprova: refiro-me à vontade de abranger nesta transferência não só o pessoal discente como também o docente. Que eu saiba, corrijam-me se estiver errado, só Macário Correia falou nisto (vá-se lá saber como o faria!), mas não é que IS me disse durante a reunião que a ANMP não quis dar luz totalmente verde a este acordo por isso! Que grande vice-presidente da Mesa do Congresso Nacional da ANMP! Felizmente não é porta-voz!

Mas vamos ao que interessa e vem escrito nesta minuta de contrato que levanta mais dúvidas. Em primeiro lugar, e para quem é funcionário de uma escola ou agrupamento, toda uma indefinição quanto ao seu futuro estatuto e carreira. Deixam de ser funcionários do Ministério da Educação para passarem a ser funcionários municipais. Em Silves serão mais 142, acrescendo aos cerca de 600 já existentes. Bonito número! Peso acrescido nas finanças locais (que o Estado diz vir a assegurar através do Fundo Social Municipal), peso político nas eleições, se bem me entendem! E aqui talvez esteja o busílis da questão e da desenfreada pressa de alguns autarcas, porque em termos financeiros este contrato não beneficia as autarquias, nesses termos só compensa o Governo e a redução do défice logo em finais de 2009.

Numa rápida consulta ao orçamento do meu Agrupamento escolar para este ano verifiquei o enorme fosso que se irá abrir entre o que actualmente o governo transfere para as escolas e o que vai transferir para as autarquias no futuro. No caso de Silves, e pelo que vi nas outras autarquias o contrato é igualzinho, o que será transferido para despesas de manutenção e apetrechamento são 20 000 euros por Agrupamento escolar. Sejam quais forem as condições de conservação e apetrechamento em que se encontrem... Todos recebem o mesmo. Escola nova, escola velha, tem tudo o mesmo. E outra questão, que nem Isabel Soares, que assinou, soube responder: manutenção até é fácil perceber o que será, mas e apetrechamento? No contrato não diz o que isso é, nem o que fica ainda a cargo do ministério ou da autarquia! É preciso um fax novo, é preciso uma fotocopiadora nova, são precisas mais duas carteiras: isso é apetrechamento. Quem o faz? Não diz. Bonito vai ser, quando as escolas começarem a pedir. Será o jogo do empurra, e quem vai pagar são os nossos filhos. Em Silves, considerado o que se tem passado com o apetrechamento e manutenção das prés e das primárias, bons tempos não se auguram...

Mas o que vem afinal neste "pacote"? A já referida Gestão do Pessoal não docente, a Gestão do Parque Escolar (até agora só das prés e do 1ºciclo, ficando ainda excluído o Secundário) e as Actividades de Enriquecimento Curricular (já exercidas pelo município com a comparticipação financeira do Estado). A grande dúvida reside sobretudo na gestão do parque escolar e nas verbas que lhe são atribuídas. Findos os tais 20 000 euros, teremos municípios capazes de fazer melhor, apoiar melhor, teremos municípios que disso não passarão. Teremos assim escolas melhores ou piores conforme os municípios, teremos assim um princípio universal de direito e acesso à educação consagrado na Constituição que terá melhor ou pior desempenho conforme a região em que vivemos. Nada que nos seja estranho, noutras áreas. Mas na educação, na saúde ou na justiça, é triste sabermos que, em lugar de se atenuarem as diferenças, cada dia que passa mais estas se acentuam entre portugueses.
Nota Final: Para que fiquem bem claras as razões porque votei contra, aqui deixo, de memória, um resumo do que declarei para a acta da referida reunião:
Comecei por dizer que em teoria e princípio, não me oponho, antes pelo contrário, ao que abreviadamente chamo "municipalização da educação".
Porém, votei contra, consideradas as seguintes razões:
1º. Por achar que a autarquia se deveria ter solidarizado com a posição da ANMP, não contratualizando isoladamente transferências de competências o que, além de enfraquecer a resolução assumida em conselho directivo daquela associação nacional, pode trazer prejuízos futuros à unidade dentro desta organização e à sua capacidade reivindicativa neste e noutros assuntos (as ondas de choque já se começaram a sentir);
2º Por considerar que existem aspectos neste contrato por esclarecer e considerar insuficiente o financiamento atribuído, bem como mal definidas as competências na área do apetrechamento e manutenção das escolas (parece que não sou só eu!);
3º Finalmente, por achar que deveria ter sido consultado o Conselho Municipal (Local) de Educação sobre assunto tão importante. Se não é das suas competências dar parecer, o que à luz da lei parece ser, seria pelo menos de bom tom ouvir a opinião deste, e das escolas ali representadas!
Enfim, ficamos à espera para ver.

2 comentários:

Anónimo disse...

Conversa da treta.

Maria de Portugal disse...

Olá, Querido Manuel!!!
Há tanto tempo que o menino não tinha o privilégio de contar com as minhas dicas...

Mas olhe, rico, li com toda a atenção este seu "manifesto". Perceno, Queriducho, o medo com que o menino ficou... É que, com tanta maldade que o Querido tem andado a fazer pela nossa Silves, acha que merece uns castigos e, por isso, acha que, passando a Câmara a mandar no Rico, vai ficar de castigo!!!

Mas que maneira tão marota de pensar, Querido Manuel!

O Menino tem é medo - parece-me... - que alguém faça ao Menino, o que o Rico seria capaz de fazer, se estivesse em posições trocadas, não é?!?

Deixe lá... Não se preocupe Querido... Posso garantir-lhe, meu Amor, que ninguém o irá tratar mal.

Peço-lhe Querido que soseegue. E que me deixe, Fofo, dar-me um grande e apertado beijo.

Desta que muito o admira,
Maria de Portugal